União entre nanotecnologia e medicamento fornecido pelo SUS promove inovação no tratamento do câncer de pele 27/10/2026 - 14:01

O Paraná ocupa a preocupante posição de segundo estado brasileiro com maior incidência de câncer de pele. O melanoma, embora represente cerca de 5% desses registros, destaca-se como o tipo mais letal da doença. Para responder a essa realidade regional, cientistas da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO) lideram uma pesquisa promissora: a criação de uma película fina e flexível que, aplicada sobre a pele, entrega um medicamento já conhecido e acessível do SUS diretamente no local do tumor.

A inovação combina ciência de ponta e economia ao apostar no reposicionamento do propranolol — um betabloqueador amplamente utilizado há décadas para tratar pressão alta e problemas cardíacos. Estudos recentes apontam que o fármaco também consegue frear o crescimento de tumores ao dificultar a formação dos vasos sanguíneos que os alimentam.

Para evitar os efeitos colaterais de doses altas por via oral, como a queda brusca de pressão, os pesquisadores decidiram encapsular o medicamento em partículas milhares de vezes menores que um fio de cabelo (cerca de 150 nanômetros), inserindo-as em filmes poliméricos biodegradáveis feitos de polissacarídeos naturais que aderem à pele como um curativo.

Com duração estimada de 24 meses, o projeto foi aprovado na  8ª edição do edital do PPSUS no Paraná, e é financiado pela Fundação Araucária, CNPq, Ministério da Saúde (Decit/SECTICS) e Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (SESA), por meio do Programa Pesquisa para o SUS (PPSUS). A gestão administrativa do projeto fica a cargo da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da UNICENTRO (FAU).

"Ao apoiar pesquisas como esta, a Fundação Araucária fortalece a ciência produzida nas universidades estaduais paranaenses, descentraliza a inovação para além da capital e direciona o conhecimento científico para problemas reais da população do Paraná. O investimento também viabiliza o uso de métodos alternativos, como o HET-CAM, alinhados às boas práticas éticas de redução do uso de animais em pesquisa”, destacou a coordenadora do projeto e professora da UNICENTRO, Juliana Sartori Bonini.

O desafio do câncer de pele e a barreira dos custos

Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de pele é a neoplasia mais comum no Brasil, respondendo por 31,3% de todos os diagnósticos. No Paraná, a estimativa para o triênio 2023–2025 aponta cerca de 9.080 novos casos anuais de câncer de pele não melanoma e 610 de melanoma. A forte exposição solar devido a atividades ao ar livre no agronegócio e no turismo, somada a uma população majoritariamente de pele clara, justifica o alto índice local.

Embora o tratamento cirúrgico funcione nos estágios iniciais, o prognóstico piora drasticamente em cenários de metástase. Atualmente, os tratamentos mais modernos, como imunoterapia e terapias-alvo, possuem custos proibitivos, taxas de eficácia limitadas (entre 30% e 60% dos pacientes) e, frequentemente, só chegam à população vulnerável após disputas judiciais.

"Na minha visão, o grande diferencial do projeto está em unir duas estratégias: o reposicionamento de um medicamento barato e já aprovado e a nanotecnologia. O propranolol tem efeito antitumoral comprovado em estudos, mas por via oral pode causar efeitos colaterais. Quando o colocamos em nanocápsulas dentro de um filme que adere à pele, conseguimos levar o fármaco direto ao local da lesão, com liberação gradual e menor exposição do restante do organismo. Além disso, os filmes são feitos com polímeros de origem vegetal, biodegradáveis e de baixo custo”, reforçou a pesquisadora Jéssica Brandão Reolon, que também faz parte da iniciativa.

Avanços no laboratório e impacto regional

A pesquisa avança por meio de uma cooperação interinstitucional que envolve cientistas da UNICENTRO, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)."A minha participação no projeto é no desenvolvimento das formulações. Temos grandes perspectivas de, ao final da iniciativa, contarmos com uma plataforma, um protótipo que possa ser melhor investigado e talvez no futuro ser uma alternativa para o tratamento tópico, um tratamento complementar para as lesões de melanoma na pele”, informou a professora da UFPR e também integrante do projeto, Luana Mota Ferreira.

Em laboratório, a equipe multidisciplinar já obteve três versões da película: uma com propranolol livre (F-PROP), outra com nanocápsulas vazias (F-NB) e a versão final com as nanocápsulas carregadas de medicamento (F-NPROP). Análises por microscopia eletrônica de varredura comprovaram a distribuição homogênea das nanocápsulas na superfície do material, e testes mecânicos indicaram que a tecnologia torna o filme mais macio e adaptável à pele.

O desenvolvimento descentralizado de tecnologias de alta complexidade reflete o fortalecimento do ecossistema de pesquisa no interior do Estado. Até o encerramento do ciclo de financiamento, a expectativa dos pesquisadores é entregar um protótipo físico-química e biologicamente validado para subsidiar futuros testes clínicos em humanos.

Além da publicação de artigos acadêmicos e do aprimoramento da infraestrutura de laboratórios, a iniciativa foca diretamente na formação de estudantes de graduação, mestrado e doutorado, preparando recursos humanos qualificados para a inovação farmacêutica em solo paranaense.

“O verdadeiro valor do investimento público em ciência se consolida quando levamos o conhecimento gerado nos laboratórios universitários para resolver problemas reais nos hospitais e postos de saúde. Projetos como este mostram a força das nossas instituições estaduais e federais em construir soluções que unem alta tecnologia e acessibilidade, gerando crescimento científico para o Paraná e, acima de tudo, devolvendo inovação em saúde pública para a sociedade que financia o sistema”, enfatizou o diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Fundação Araucária, Luiz Márcio Spinosa.

 

Fotos: Arquivo pessoal do projeto.

GALERIA DE IMAGENS