Pesquisa paranaense alia ciência e práticas integrativas no combate aos efeitos do tratamento do câncer de mama 22/10/2026 - 09:35
O mês de outubro é marcado mundialmente pelo movimento Outubro Rosa, uma campanha essencial para a conscientização sobre a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de mama. Sendo o tipo de tumor mais frequente entre as mulheres no Brasil (atrás apenas do câncer de pele não melanoma), a estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA) aponta para milhares de novos diagnósticos anualmente. No entanto, com o avanço tecnológico e da medicina oncológica, viver após o diagnóstico e sobreviver ao câncer é uma realidade cada vez mais frequente.
Com o financiamento da Fundação Araucária, por meio do Programa Pesquisa para o SUS (PPSUS), um projeto inovador aprovado no último edital busca responder ao grande desafio da saúde pública atual: garantir a qualidade de vida dessas mulheres durante e após tratamentos severos, como a quimioterapia e a radioterapia, utilizando a Oncologia Integrativa.
O diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Fundação Araucária, Luiz Márcio Spinosa, reforçou a relevância estratégica desse tipo de aporte na saúde pública. "O investimento em ciência dentro da rede pública de saúde é o que permite transformar a realidade do atendimento à população. Quando financiamos projetos no âmbito do PPSUS, estamos assegurando que a inovação e o conhecimento acadêmico gerem soluções práticas e eficientes diretamente no SUS, aprimorando as políticas públicas e garantindo um cuidado cada vez mais qualificado e humanizado para os paranaenses”.
Auriculoterapia e Aromaterapia contra a Fadiga
Intitulado "Oncologia Integrativa: efeito da auriculoterapia a laser e aromaterapia na fadiga, qualidade do sono e qualidade de vida de pacientes com câncer de mama - ensaio clínico randomizado", o estudo avalia os impactos de Práticas Integrativas e Complementares (PICS). O objetivo é mensurar a redução da fadiga crônica e a melhora na qualidade do sono de mulheres em tratamento oncológico convencional.
A pesquisa caminha lado a lado com as diretrizes da ReCANCER — uma rede de pesquisa nacional dedicada à produção de conhecimentos científicos para melhorar o bem-estar de pessoas com câncer e sobreviventes. A meta principal do projeto é a criação de protocolos assistenciais seguros, qualificando a atuação de enfermeiros dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).
"O investimento da Fundação Araucária, por meio do PPSUS, é o que viabiliza esta pesquisa. Ele nos permite aproximar a ciência de ponta da realidade dos hospitais, transformando o conhecimento acadêmico em protocolos reais de enfermagem que impactam diretamente a vida das pacientes no SUS do Paraná. Sem esse incentivo, seria impossível fortalecer a produção de conhecimento voltada às reais prioridades de saúde da nossa população”, enfatizou a coordenadora do projeto e professora da Universidade Federal do Paraná, Luciana Kalinke.
Conexão entre a pesquisa acadêmica e a prática oncológica
A base científica do projeto conta com o respaldo de investigações prévias que comprovam a eficácia dessas abordagens. Larissa Marcondes, doutora em Enfermagem e professora do Departamento de Enfermagem da UFPR, traz para o estudo a bagagem de sua pesquisa de doutorado, na qual investigou justamente a efetividade da auriculoterapia a laser na qualidade de vida, fadiga e ansiedade de mulheres com câncer de mama avançado em quimioterapia paliativa.
"Essa experiência aprofundou minha compreensão sobre as repercussões do câncer e do tratamento no cotidiano das mulheres e sobre a importância de investigar recursos complementares para o manejo dos sintomas", explicou Larissa. "Os resultados favoráveis observados na qualidade de vida e na fadiga fortaleceram meu compromisso com a produção de conhecimento científico sobre essas intervenções, ao mesmo tempo que reforçaram a necessidade de reconhecer seus limites e avaliar criteriosamente os diferentes desfechos."
Para a pesquisadora, o projeto atual funciona como uma oportunidade de ampliar o cuidado oncológico, reconhecendo as necessidades físicas, emocionais, sociais e espirituais que atravessam o adoecimento e a sobrevivência ao câncer. "Minha visão é de que o cuidado deve contemplar, além do controle da doença, o alívio do sofrimento, a preservação da autonomia e a valorização daquilo que cada pessoa considera essencial para sua qualidade de vida. Considero fundamental desenvolver e avaliar intervenções não farmacológicas que possam integrar a assistência de maneira segura, fundamentada em evidências e sensível às experiências individuais."
Larissa projeta que o financiamento viabilizado pelo edital do PPSUS articulará de forma sólida a pesquisa, o ensino e a extensão. "Pretendo contribuir para o desenvolvimento e a avaliação de intervenções, a formação de profissionais e a construção de estratégias que favoreçam sua incorporação qualificada ao cuidado, inclusive no SUS. Vejo nessa proposta a possibilidade de consolidar uma linha de atuação comprometida com o cuidado integral, com o protagonismo da enfermagem e com a produção de benefícios relevantes para a vida das pessoas que convivem com o câncer e com suas repercussões", concluiu.
O cuidado não termina quando o tratamento acaba
A conexão entre a bancada científica e o leito do paciente é fortalecida por profissionais que vivenciam a rotina oncológica de perto. É o caso de Leonel dos Santos Silva, enfermeiro que atua na coordenação do ambulatório de hematologia e oncologia do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Sua motivação para integrar a ReCANCER começou ainda no mestrado e doutorado, participando de debates sobre estratégias para suprir necessidades de cuidados não atendidas em doenças hemato-oncológicas. Com o avanço das terapias, Leonel destaca que o número de sobreviventes cresce continuamente, o que exige uma reflexão profunda sobre as dificuldades persistentes pós-diagnóstico, incluindo o retorno ao trabalho, relacionamentos e atividades diárias.
Para o enfermeiro, a assistência atual foca intensamente no período do tratamento, mas as demandas de seguimento continuam invisíveis e precisam ser mapeadas."Este projeto é fundamental porque ataca justamente as dores que costumam ficar 'invisíveis' no tratamento convencional. A fadiga severa e a insônia minam a dignidade e a autonomia da mulher. Ao validar cientificamente a auriculoterapia a laser e a aromaterapia, damos ferramentas seguras e baseadas em evidências para o enfermeiro cuidar da pessoa de forma verdadeiramente integral, aliviando os efeitos colaterais sem interferir nas terapias médicas obrigatórias."
Ao unir a campanha do Outubro Rosa à seriedade da pesquisa científica financiada pela Fundação Araucária, o Paraná consolida uma abordagem oncológica integrativa e humanizada, provando que tratar o câncer envolve acolher e reabilitar a vida em sua totalidade.
Fotos: Arquivo dos pesquisadores do projeto.






