Pesquisa alerta para a falta de visão sistêmica e inova com a implantação de iniciativas voltadas à Ciência Cidadã 02/07/2026 - 12:13

Apesar da enxurrada diária de notícias sobre o aquecimento global, a população em geral ainda não se sente mobilizada. Foi a percepção dessa desconexão que motivou, pesquisadores da Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR-Campus Curitiba - integrantes do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação de Emergências Climáticas (NAPI EC) implantado pela Fundação Araucária, a iniciar em 2023, uma investigação profunda sobre entendimento, percepção e ação multisetorial para a mitigação das Mudanças Climáticas  (MC).O objetivo deste trabalho que integra o EIXO – 5 do NAPI EC foi incialmente o de identificar as lacunas de entendimento e percepção sobre as MC, a fim de subsidiar o desenvolvimento de estratégias de Letramento Climático, capazes de transformar informação e conscientização em ações práticas de enfrentamento da crise climática.

“O quinto eixo do NAPI EC conecta os resultados técnicos à sociedade, promovendo a conscientização pública por meio de comunicação, ensino e diálogo. Com palestras, simpósios e interações diretas com governos e comunidades, ele traduz a ciência em prática. Nosso objetivo é capacitar gestões municipais e a sociedade civil, reduzindo a vulnerabilidade do Paraná e garantindo resiliência para a economia e a população”, afirmou o articulador do NAPI EC, Francisco Mendonça.

Os trabalhos iniciados pelos cientistas, tiveram como base a  percepção de que, mesmo entre indivíduos com alto nível de instrução, existiam lacunas conceituais sobre as causas e principalmente extensão dos efeitos das transformações no clima.“Investir no NAPI de Emergências Climáticas significa garantir que o Paraná não seja apenas reativo aos desastres naturais, mas sim um Estado resiliente e preparado. O trabalho desenvolvido por este Arranjo nos fornece dados preditivos cruciais, diagnósticos de vulnerabilidade e soluções tecnológicas para mitigação de riscos. É a ciência paranaense gerando subsídios para salvar vidas e proteger a nossa infraestrutura”, ressaltou o presidente da Fundação Araucária, Ramiro Wahrhaftig.

A Pesquisa e os Resultados Alcançados

Para mapear essas lacunas de entendimento e percepção e gerar mobilização e engajamento em assuntos relacionados ao letramento climático, o grupo de pesquisadores desenvolveu um questionário online e realizou uma detalhada pesquisa bibliográfica. O questionário foi respondido por 456 pessoas de Curitiba e Região, com idades entre 7 a 71+ anos.Algumas das principais conclusões referentes ao entendimento e potencial de ação pessoal representaram um marco para entender, organizar e definir uma abordagem de Letramento Climático efetivo. Confira os principais números da pesquisa no infográfico abaixo:

 

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Fonte: Dados da pesquisa/Imagem gerada por IA.

 

Os resultados também mostraram algumas outras questões bastante relevantes, mais especificamente quanto à identificação das principais lacunas (gaps) de percepção sobre as Mudanças Climáticas.Evidenciaram ainda, quatro lacunas principais ou gaps: a visão muito fragmentada das causas das MC; a desconexão do entendimento das causas e consequências dentro de uma perspectiva multidisciplinar; ausência de entendimento sistêmico, isto é, da constante retroalimentação entre causas e consequências, em nível local, regional e global e a incapacidade de relacionar os acontecimentos climáticos globais com as questões que acontecem no território da pessoa.

Os resultados da investigação dos pesquisadores também jogaram luz sobre o papel da mídia. O foco exclusivo em desastres isolados (enchentes, queimadas) gera reações emocionais imediatas, mas esconde a necessária conotação sistêmica das MC.“Para sensibilizar e estimular a ação das pessoas, é necessário gerar o entendimento que eventos climáticos extremos como altas temperaturas, estiagens, tornados, ocasionam perdas em vários âmbitos, não somente de infraestrutura. A quebra de safras, por exemplo, provocada por secas prolongadas gera escassez de insumos e impacta a economia. A alta do preço não tem relação com fatores governamentais ou políticos, mas sim com a perda física das colheitas. E  assim é gerado um efeito sistêmico, em cascata: a falta de água gera problemas agrícolas, que se acumulam na cadeia produtiva e encarecem o cotidiano das pessoas”, enfatizou a coordenadora das atividades de campo e de pesquisa desta iniciativa, Libia Patricia Peralta Agudelo. Este trabalho tem como coordenador geral, o professor Eloy Fassi Casagrande.

Estas lacunas (gaps) representam a base para a definição de um Programa de Letramento e Educação Ambiental Climática não formal e específico para cada grupo etário que permitisse quebrar as barreiras cognitivas identificadas e combater o distanciamento da realidade climática — observados de forma preocupante até mesmo entre estudantes universitários.  Diante desse cenário, desde o início de 2025, os esforços das pesquisas foram direcionados ao fortalecimento da educação climática informal, com foco em comunidades, cidadãos, empresários, lideranças locais e gestores. A abordagem adotada privilegiou o contexto urbano, territórios mais vulneráveis, o planejamento e urbanismo resilientes aliado à arquitetura sustentável, buscando um programa de letramento climático que permitisse ampliar a capacidade de adaptação e resposta frente aos desafios impostos pela emergência climática.O objetivo foi o de apoiar os atores que atuam na linha de frente dos eventos extremos e desastres e os gestores municipais e demais instituições responsáveis pelo planejamento territorial, pela gestão de riscos e pela construção de estratégias de adaptação e resiliência climática.

Parceria com a Defesa Civil: Presença e letramento nos territórios que geram confiança

Buscando criar este entendimento sobre Letramento e Ação Climáticos foi definida uma estratégia participativa de atuação pelos pesquisadores da UTFPR-Campus Curitiba do NAPI EC, pois se depararam com uma pergunta crucial: Quem é o ator mais envolvido e atuante na linha de frente diante da emergência climática nas cidades? A resposta foi unânime: a Defesa Civil.Foi então decidido criar um programa piloto na Vila Torres, um território vulnerável em Curitiba. Isto devido a que tanto a Defesa Civil Municipal como a UTFPR já tinham atuação prévia no território. Os pesquisadores já conheciam este território devido ao projeto “VAMOS” realizado em parceria com a Universidade de Uppsala (Suécia) e financiado pelo Programa Erasmus+ da Comunidade Europeia durante 2020-23.

Como demanda e preocupação do Comando de Operações da Defesa Civil ficou evidente que, historicamente, a Defesa Civil é acionada apenas nos momentos de desastre, quando na verdade, a atuação é direcionada também às ações de letramento climático pré- desastres. Neste sentido, a meta, perante os atuais desafios climáticos, é consolidar em 2026 o Programa "Famílias Resilientes" e criar Brigadas Climáticas Comunitárias. Sendo assim, foi assinado Termo de Cooperação entre as duas instituições com este fim.Para que o plano funcione, foram mapeados dois desafios críticos de comunicação no território: superar a desconfiança - em algumas comunidades de base, a Defesa Civil ainda é erroneamente associada a uma entidade policial ou fiscalizatória e adotar uma abordagem não intrusiva - a estratégia de entrada focou no contato presencial e olho no olho.

Neste sentido, optou-se por iniciar o desenvolvimento de um Modelo de Letramento climático, na Vila das Torres, no qual se cumprissem os seguintes objetivos: abordagem participativa de letramento; adoção dos princípios da Ciência Cidadã; desenvolvimento de dados que fossem de utilidade tanto para a comunidade realizar sugestões organizadas sobre seu território, como orientassem os gestores e a Defesa Civil em seus programas de mitigação de desastres. Com esse trabalho, os resultados derivaram em dados de qualidade, inseridos nas bases e plataformas de mapeamento espacial, contribuindo para o mapeamento e planejamento urbano e planos de contingência mais acertados.

"A pesquisa do NAPI EC oferece suporte direto à Defesa Civil, permitindo identificar, de forma espacializada e com participação comunitária, riscos climáticos, deficiências de infraestrutura e demandas sociais, gerando mapas que subsidiam ações do Programa Família Resiliente", destaca o inspetor da Defesa Civil, Nelson Ribeiro.E essa parceria segue afinada no planejamento das próximas ações, no último dia 24, foi realizada uma reunião nas dependências do Escritório Verde na UTFPR, com o objetivo de definir os últimos detalhes das ações do Plano de Contingência e Brigadas Climáticas Comunitárias dentro do Programa Família Resiliente da Defesa Civil.

A Metodologia

O método da Cartografia Social Participativa baseia-se na Ciência Cidadã, sendo ferramenta consolidada em metrópoles como Barcelona e Milão. Longe de ser um conceito romântico, envolver a população na identificação de pontos de interesse, gera mapas atualizados e precisos das suas demandas e observações sobre os riscos climáticos que acometem seus territórios. Essas informações alcançam uma escala muito precisa e atualizada, que caso fosse levantada pelo gestor público, ele não teria condições de acompanhar continuamente sozinho. Desta forma, a participação cidadã gera importante economia para os cofres públicos.

“A vertente metodológica adotada, preza pela máxima precisão técnica para evitar prejuízos. O refinamento cartográfico destas pesquisas dentro do NAPI EC alcançou mapas com precisão de cinco metros, superando ferramentas globais de mercado como o Google Earth Engine, que tem resolução de 10 metros”, destacou a pesquisadora Patricia.

Entre 2025 e o cenário atual de 2026, os resultados obtidos aplicando a cartografia nas comunidades, foram transpostos em plataforma digital e adaptados aos padrões de geoprocessamento da Prefeitura de Curitiba, pois é esperado que estes possam ser integradas nas plataformas de gestão municipal, tais como são o Hipervisor do IPPUC_Instituto de Planejamento Urbano de Curitiba e plataformas da Defesa Civil.Dentre os resultados gerados estão mapas de riscos climáticos, usando uma análise multicriterial ponderada, onde cada risco climático identificado pela comunidade e pesquisadores, recebe um determinado peso (1-5) de acordo à sua severidade no território. Em uma malha de cinco metros, os riscos são ponderados usando um algoritmo do QGIS (plataforma de geoprocessamento usada) , sendo assim identificadas células onde há aglomeração maior de riscos severos.  

Estes mapas também contribuem para a definição de assuntos estratégicos para a população e Defesa Civil, contribuindo com os Planos de Contingência de desastres já produzidos em nível municipal e estadual e ajudando na definição de rotas de fuga, localização de abrigos, locais de apoio, dentre outras situações.O processo destaca-se por ser simples, rápido e de baixo custo. Em poucas horas, os pesquisadores coletam informações, geram mapas extremamente precisos e atualizado validados com a comunidade.

Compreensão territorial e validação dos dados com 97% de acerto

A receptividade tem sido o motor do sucesso em campo. O processo cartográfico gera momentos de forte emoção, no qual os moradores oferecem depoimentos espontâneos ao se reconhecerem no mapa e no que produzem. Os testes exaustivos na Vila Torres e posteriormente em outros territórios , que envolveram cooperativas de catadores de recicláveis, centros de convivência comunitários, igrejas e escolas públicas, comprovaram a facilidade de interpretação do mapa bidimensional abstrato por públicos de qualquer nível de escolaridade. O índice de acerto foi histórico, alcançando 97% de precisão geral.

Essa maturidade metodológica abriu portas para novas frentes institucionais. Por meio de articulações com a vereadora Laís Leão (ex-aluna do grupo dedicada a cidades resilientes), o NAPI aproximou-se da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA), desenvolvendo e validando uma cartografia digital focada em drenagem urbana e arborização em uma outra comunidade, na região da Avenida Arthur Bernardes.

Os canais de diálogo entre os pesquisadores e órgãos/instituições públicos competentes da área são robustos. Contatos importantes estão sendo feitos com o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC) e com a SEDEST-Secretaria do Estado de Desenvolvimento Sustentável. A interação com outros NAPIs, tais como: Paraná Faz Ciência vem acontecendo, além da iniciativa também já ter sido apresentada na COP30, para o Ministério Público do Paraná e as Prefeituras de São José dos Pinhais e Piraquara.

Reconhecimento Internacional

Os pesquisadores do NAPI EC consolidaram em 2026 a metodologia desenvolvida como de ponta e de importância prática e científica para proteger vidas e transformar a gestão pública. Este trabalho recebeu um 2025, o prêmio Acknowledged FlagShip Project (Projeto de grande impacto) outorgado pela UNU_ Universidade das Nações Unidas, dentro do Programa RCE (Regional Centers of Expertise) Awards do qual os pesquisadores fazem parte.

Mobilização de talentos e o HubClima - Nova Unidade Climática Móvel

O amadurecimento e a democratização do projeto geraram uma forte onda de engajamento interno na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Professores de cursos afins como Design, Comunicação Organizacional e Engenharia Civil, tem se integrado com projetos práticos para apoiar a iniciativa. Atualmente, o projeto conta com uma força de trabalho de 78 alunos focados na melhoria da identidade visual, criação de jogos interativos de letramento climático, desenvolvimento de Canal de YouTube, Podcasts, entre outros.

Um dos principais produtos físicos que o NAPI EC da UTFPR-Curitiba é a montagem do HubClima,  Unidade de Pesdquisa, Letramento e Comunicação Climática Móvel. Trata-se de um reboque com design marcante na cor branco e laranja — projetado para atrair a atenção visual e facilitar o acesso rápido da informação nos territórios.Essa unidade móvel transportará uma estrutura para promover atividades participativas de educação e treinamentos, com a qual se pretende promover ações em Curitiba e no interior do Estado, junto à comunidade, escolas, empresas, congressos, gestores e demais atores relevantes.  

 

Fotos/Ilustrações e Mapas: Pesquisadores da Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR-NAPI EC.

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