Pesquisa Paranaense desenvolve dispositivo de IA para combater o mosquito Aedes aegypti 22/10/2026 - 14:14

No Brasil, as doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti fazem parte de um dos maiores desafios da saúde pública no país. O clima tropical somado ao aumento gradual da temperatura, ocasionado pelas mudanças climáticas, tornam propício o aumento do número de casos de arboviroses. Essa tendência contribui para o agravamento de surtos e aparição de epidemias, que afetam a população e sobrecarregam o sistema público de saúde.

Diante desse cenário, pesquisadores da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) estão desenvolvendo um dispositivo baseado em inteligência artificial para monitorar e analisar a presença do mosquito Aedes aegypti em Foz do Iguaçu, no Paraná. O projeto, ainda em fase de desenvolvimento, é um dos aprovados na 8ª Chamada Pública do Programa Pesquisa para o SUS (PPSUS).

Intitulado “Solução Disruptiva utilizando Inteligência Artificial e Sensores de Baixo Custo para a Vigilância Entomológica no SUS”, o estudo envolve pesquisadores e estudantes de diferentes áreas, unindo a computação, engenharia e entomologia. Instituições nacionais e internacionais também fazem parte da pesquisa, algumas das envolvidas são o Instituto Butantan, o Centro de Controle de Zoonoses de Foz do Iguaçu, a Universidade Federal da Integração Latino-Americana, a University of New South Wales (na Austrália) e a Universidade de São Paulo.

A pesquisadora de laboratório jr e curadora da Coleção Entomológica do Instituto Butantan Flávia Virgínio, que também participou do desenvolvimento do projeto, afirma que as alterações ambientais já contribuíram para o aumento dos casos: “Em 2024, o Brasil registrou o maior número de casos de dengue já observados na série histórica. Além disso, chikungunya e zika continuam circulando em diversas regiões do país, com ocorrência de surtos e aumento do risco de transmissão.”

O projeto é conduzido pelo professor André Gustavo Maletzke, coordenador do Laboratório de Entomologia Computacional (COEN) da Unioeste, em Foz do Iguaçu. Segundo o professor, doenças transmitidas por mosquitos são um problema recorrente no Brasil, e uma resposta efetiva a esse desafio passa pelo monitoramento de mosquitos vetores.

“Conhecer o tamanho e a diversidade da população de mosquitos em cada região é fundamental para orientar ações de prevenção e controle, permitindo que as equipes de saúde direcionem seus esforços para reduzir a presença dos vetores e o risco de transmissão de doenças”, disse.

Entretanto, esse monitoramento ainda é realizado de forma manual, limitando a obtenção de informações e a resposta das equipes de saúde. Essa limitação motivou o desenvolvimento da pesquisa: “Isso nos levou a desenvolver uma tecnologia moderna, de baixo custo e precisa, que ajude as equipes de saúde a identificar mais rapidamente onde os mosquitos estão aumentando e a direcionar melhor as ações de prevenção”, comenta o pesquisador.

Uma análise rápida e direcionada - Atualmente, o Levantamento de Índice Rápido para o Aedes aegypti (LIRAa) é a estratégia autorizada pelo Ministério de Saúde para o controle do mosquito. Esse processo consiste na procura por focos do mosquito a partir do sorteio de imóveis nos municípios. Esse monitoramento, entretanto, é lento, manual, propensa a erros e de alto custo.

Para tornar esse processo mais prático e eficiente, os pesquisadores focaram no desenvolvimento de um dispositivo que coleta informações a partir de sensores de baixo custo. “Nosso dispositivo percebe quando um inseto passa pelo sensor. O sinal percebido é analisado por um programa de inteligência artificial, que identifica, dentre outras informações, o gênero, a espécie, o sexo (gênero e sexo são a mesma coisa) e, inclusive, o tamanho do mosquito. Depois realiza a estimativa populacional utilizando inteligência artificial desenvolvida para essa problemática”, explica o professor André.

Essas informações são direcionadas a um centro de monitoramento e, com base nos dados coletados, é possível detectar áreas de risco e direcionar inspeções e ações de controle. Esse plano consegue aprimorar a vigilância do mosquito e, assim, favorecer as estratégias de enfrentamento de arboviroses no âmbito do SUS.

De acordo com a pesquisadora Flávia, esse controle eficiente contribui para a “manutenção do equilíbrio ecológico na região”, o que impacta diretamente na saúde humana.

Com base nos resultados obtidos em experimentos de laboratório e de campo, o projeto avança para a integração da tecnologia às armadilhas já utilizadas no Brasil, conforme recomendação do Ministério da Saúde.  Essas armadilhas, chamadas “ovitrampas”, são capazes de atrair a fêmea do mosquito e capturar seus ovos, viabilizando o monitoramento manual a partir da contagem de ovos e larvas na armadilha.

Com a implementação dos sensores por IA nas ovitrampas, o projeto facilita a fiscalização, diminuindo o tempo e os custos da verificação manual. A tecnologia, portanto, tem o potencial de transformar armadilhas simples em dispositivos inteligentes de combate à dengue, zika e chikungunya.

Os pesquisadores buscam aprimorar a precisão da análise e apuração dos dados para então aplicar esse método em larga escala. “Com a validação da tecnologia, a ideia é que ela possa ser adaptada à rotina de outros municípios e fortaleça a prevenção de doenças transmitidas por mosquitos no SUS”, afirma o coordenador.

Além do desenvolvimento de projetos como esse, a participação da população também é um fator essencial para o controle dos surtos de arboviroses no Brasil. “As pessoas são um ponto-chave para o sucesso desse projeto. Ao abrirem suas casas para que os agentes possam entrar, instalar os equipamentos e contribuir observando se tá tudo certo, eles fazem com que a roda gire”, relata Flávia.

PPSUS - O Programa de Pesquisa para o SUS visa incentivar o desenvolvimento na saúde pública em todos os estados do Brasil a partir do financiamento de pesquisas. No Paraná, a iniciativa é fomentada pela Fundação Araucária em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa-PR), Ministério da Saúde e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Fotos: Equipe do projeto e Unioeste