Da cultura indígena à tecnologia, jovens pesquisadores mostram a diversidade da ciência na FECCI 2026 05/11/2026 - 19:25

Com expectativa de receber cerca de 10 mil visitantes ao longo dos três dias de programação, a 2ª Feira de Cultura Científica (FECCI 2026) reúne histórias de superação, descobertas e criatividade que mostram como a ciência desenvolvida nas escolas pode transformar realidades. Nesta quinta-feira (5), segundo dia do evento, estudantes de diferentes regiões do Paraná apresentaram pesquisas que unem conhecimentos indígenas, preservação ambiental, saúde e desenvolvimento de tecnologias, nos estandes do Campus Neoville da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), em Curitiba.

Para um grupo de estudantes da Escola Estadual Indígena Guavira Poty, localizada na aldeia Guaviraty, em Pontal do Paraná, a participação na FECCI representa uma conquista que vai muito além da apresentação de projetos científicos. Pela primeira vez, as crianças da categoria FECCI Kids saíram da aldeia para participar de um evento dessa dimensão. Ao todo, o grupo reúne 13 pessoas, entre estudantes e professores, que compartilham conhecimentos da cultura guarani com visitantes de diferentes regiões.

O estudante Kelvin Acosta, do 4º ano, participa de uma pesquisa sobre as plantas medicinais utilizadas pela comunidade. O projeto valoriza os conhecimentos transmitidos pelos mais velhos e busca compartilhá-los com o público. Para apresentar o trabalho, os estudantes produziram um material informativo. “Eu aprendo muita coisa no projeto e também compartilho o que os mais velhos da aldeia me ensinam”, contou o menino, que aprendeu a falar português na escola, tendo o guarani como primeira língua.

A professora Ana Paula dos Santos, que atua há 16 anos na educação e há quatro leciona na aldeia, emocionou-se ao falar sobre os desafios enfrentados pela comunidade e a importância da participação na feira. “Os projetos da nossa escola é o que dá um caminho para estarmos aqui fora. Para nós participarmos deste evento é uma vitória. Podermos divulgar os saberes tradicionais e da vivência dentro da aldeia, de mostrarmos um pouco do nosso modo de vida”, afirmou.

Ciência e preservação ambiental - Os estudantes mais velhos da mesma escola participam do Clube de Ciências, que desenvolve o projeto “Terra sem Males: a busca pelo oceano”, relacionando a cultura guarani à preservação do território e dos recursos naturais.

Samara Gonzales, de 13 anos, estudante do 7º ano, está entre os sete integrantes indígenas do clube. Entre as atividades desenvolvidas está o monitoramento da qualidade da água dos rios, utilizando equipamentos recebidos por meio do projeto.

“Ganhamos equipamentos no Clube de Ciências para observar a qualidade da água dos rios. Desde que entrei no clube adquiri muitos conhecimentos e também posso passar um pouco da nossa cultura. Enfrentamos muitos desafios para chegarmos até aqui”, relatou.

A diversidade de experiências também está presente no trabalho de Maya Moura Soares, estudante do 4º ano da Escola Municipal João Bueno de Godoy, de Cianorte. Para participar da FECCI, ela saiu de casa às 4h da manhã e chegou a Curitiba ao meio-dia. No estande da FECCI Kids, apresentava com desenvoltura uma pesquisa sobre prevenção e combate à dengue.

“Estamos apresentando todo o ciclo de vida do mosquito e como a doença é transmitida. Também desenvolvemos um repelente caseiro que podemos ensinar os visitantes a produzir”, explicou.

A professora Micheli Domenech conta que o projeto surgiu da necessidade de conscientizar a comunidade diante do elevado número de casos da doença na região. “É bem empolgante e gratificante. Assim que as crianças souberam que o projeto foi selecionado para a feira ficaram muito motivadas. Fico muito feliz em plantar a sementinha neles”, relatou.

Tecnologia e soluções para o cotidiano  - De Umuarama, estudantes do Clube de Ciências Experimentando a Ciência, da Escola Estadual Jardim Canadá, apresentam projetos que unem sustentabilidade, alimentação e inovação.

Rafaela da Silva, de 13 anos, desenvolve uma pesquisa para a produção de pão enriquecido com farinha obtida da casca e da polpa da manga, buscando aproveitar os nutrientes da fruta e criar uma alternativa alimentar. “Substituímos o trigo pela farinha da manga. Nós desenvolvemos a farinha e também produzimos o pão. Nosso objetivo é inserir na merenda da escola”, explicou.

Sua colega Rayla de Andrade, de 15 anos, apresenta um protótipo de horta vertical automatizada. “Ele aproveita a água da chuva e permite a irrigação mesmo nos períodos em que não estamos na escola. A expectativa é implementar a tecnologia na unidade de ensino no próximo ano”, afirmou.

A busca por soluções também motivou Henrique Santin, estudante do 5º ano da Escola Pedro Apóstolo, de Curitiba. Ao acompanhar os efeitos da doença de Parkinson em seu avô, o menino decidiu desenvolver, com o apoio dos professores, uma tecnologia para auxiliar no acompanhamento de pacientes.

O projeto consiste em uma luva equipada com sensores capazes de identificar tremores e enviar informações a um aplicativo, que organiza os dados em relatórios para acompanhamento médico. “Eu quero ajudar meu avô e outras pessoas. A luva detecta os tremores e manda para o aplicativo, que gera relatório para mostrar para o médico”, contou Henrique.

A recuperação de áreas degradadas do Parque Nacional de Ilha Grande também é tema de pesquisa apresentada na FECCI. A estudante Maria Isabel Maciel, Colégio Estadual Lucia Alves de Oliveira Schoffen, de Altônia, participa de um projeto para a criação de um viveiro educativo de espécies arbóreas nativas, destinadas ao reflorestamento. “Nosso objetivo é unir educação, ciência e conservação. Afinal, não estamos apenas plantando árvores, estamos criando condições para que uma floresta inteira volte a existir”, destacou.

Ciência para todas as idades - Promovida pelo NAPI Paraná Faz Ciência, com fomento e parceria da Fundação Araucária e de outras instituições, a FECCI reúne projetos de estudantes a partir dos seis anos de idade, distribuídos nas categorias Kids, Junior e Jovem, contemplando diferentes etapas da Educação Básica.

Além das exposições científicas, a programação oferece experiências interativas, como a Arena Robótica do Sesc, o Museu Tecnológico da UTFPR e o Planetário Móvel do Parque da Ciência Newton Freire Maia. A feira também conta com atividades culturais e o lançamento de três e-books voltados à escrita científica e às práticas dos clubes de ciências.

Com 688 projetos selecionados para a etapa presencial e mais de 2 mil expositores, a FECCI segue até esta sexta-feira (6) pela manhã, quando acontece a cerimônia de premiação dos trabalhos de destaque. A programação é gratuita e aberta ao público, no Campus Neoville da UTFPR, em Curitiba.