Com investimento da Araucária, INCT Nupélia articula rede internacional para proteger ecossistemas aquáticos 20/10/2026 - 09:38

Em um momento em que as discussões sobre segurança hídrica e transição energética ganham urgência global, a ciência brasileira consolida uma iniciativa estratégica para o futuro das águas continentais com o lançamento do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Nupélia, iniciativa viabilizada com o apoio estratégico e financeiro da Fundação Araucária.

O Nupélia é uma robusta rede de pesquisa dedicada exclusivamente à gestão sustentável desses ecossistemas. A iniciativa une especialistas de diversas áreas da ecologia com um propósito claro: estudar os usos conflitantes dos recursos hídricos e buscar soluções viáveis para os gargalos de conservação nas bacias hidrográficas do país.

Para dar escala a esse desafio, o projeto mobiliza uma equipe de excelência composta por 84 pesquisadores. Desse total, 36 cientistas pertencem à Universidade Estadual de Maringá (UEM), que lidera a iniciativa, enquanto 27 estão distribuídos por outros 13 estados brasileiros e 21 atuam no exterior, conectando o projeto a instituições de 14 países.

“Iniciativas de excelência e de longa duração, como as propostas pelo INCT Nupélia, são fundamentais porque não apenas geram conhecimento de ponta, mas moldam ecossistemas de inovação preparados para responder a problemas socioambientais complexos. Apoiar essa rede significa municiar o poder público com dados científicos capazes de subsidiar políticas públicas assertivas, transformando pesquisas de relevância internacional em desenvolvimento sustentável e bem-estar para a nossa sociedade”, afirmou o diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Fundação Araucária, Luiz Márcio Spinosa.

O laboratório natural do Rio Paraná e os desafios ambientais

O foco geográfico das investigações é o último trecho não represado do Rio Paraná em território brasileiro. Trata-se de um segmento de 230 quilômetros delimitado entre a Usina Hidrelétrica (UHE) Porto Primavera, na região do Pontal do Paranapanema, e o remanso do reservatório de Itaipu, em Guaíra (PR). Essa região é dotada de uma relevância singular, pois ao mesmo tempo em que move setores econômicos vitais como a produção de energia, a pesca, o turismo, a agropecuária e a indústria, ela abriga uma biodiversidade única.

Por estar integralmente inserido em três unidades de conservação e receber rios tributários que ainda correm livres, esse ecossistema funciona como um laboratório natural perfeito para compreender como a natureza responde às pressões humanas, como barramentos, invasões biológicas e mudanças climáticas.

Apesar de prover bens e serviços ambientais essenciais para a sociedade, essa planície de inundação está fortemente ameaçada. As barragens instaladas ao longo da bacia alteram profundamente os habitats tanto acima quanto abaixo das usinas. Na parte inferior, as hidrelétricas modificam o regime hidrológico natural, que é justamente a força motriz responsável por regular a vida nas áreas inundáveis.

O cenário se agrava com o chamado hidrópico — flutuações artificiais diárias no nível da água provocadas para atender aos picos de demanda energética, um fenômeno intensificado pela entrada de fontes intermitentes, como solar e eólica, na matriz brasileira. Essa oscilação constante desestrutura a fauna e a flora nativas e elimina habitats de águas correntes, facilitando a proliferação de espécies invasoras que ameaçam se dispersar por toda a bacia.

O desafio ambiental das espécies exóticas invasoras

A introdução de espécies em ambientes onde elas não ocorriam naturalmente é um dos grandes problemas ecológicos da atualidade, sendo um dos temas centrais do INCT. Algumas espécies conseguem se estabelecer e proliferar intensamente, alterando o funcionamento dos ecossistemas, reduzindo a biodiversidade e causando impactos econômicos.

A planície de inundação do alto rio Paraná é um exemplo claro desse processo. Nas últimas décadas, espécies exóticas de diversos grupos passaram a ocupar seus rios, lagoas e áreas alagáveis, incluindo microrganismos, parasitas de peixes, invertebrados como o mexilhão-dourado, plantas aquáticas como a braquiária-d'água e a hydrilla, e peixes como o tucunaré.

“Estudos de longa duração realizados na região permitem identificar as principais vias de introdução. No caso dos peixes, algumas estão relacionadas à pesca, como a liberação deliberada do tucunaré, e a escapes de pisciculturas. Entretanto, um dos maiores eventos de invasão ocorreu com a formação do reservatório de Itaipu, no início da década de 1980. O enchimento do reservatório eliminou as Sete Quedas, uma barreira natural que dificultava a passagem de peixes para o alto rio Paraná. Com isso, espécies que antes não ocorriam na região puderam alcançar a planície e colonizá-la, tornando-se um exemplo emblemático de como grandes obras facilitam a expansão de invasoras”, informou o coordenador do eixo Sidinei “Espécies invasoras em águas continentais” do INCT Nupélia e professor da UEM, Sidinei Magela Thomaz.

Os reservatórios situados rio acima também contribuem para esse processo, pois modificam o regime hidrológico e aumentam a transparência da água. Isso favorece o tucunaré, um predador que utiliza a visão para caçar, e a hydrilla, cujo crescimento depende da penetração de luz na água. Os impactos variam: a braquiária-d'água compete com plantas nativas e reduz a diversidade da vegetação; o mexilhão-dourado afeta outros moluscos; e o tucunaré, por meio de uma forte predação, altera a estrutura das comunidades de peixes nativos.

Eixos de pesquisa e a ciência aplicada a políticas públicas

Para enfrentar essa realidade, os pesquisadores do INCT Nupélia organizaram o trabalho em três eixos principais: represamentos e transição energética, espécies invasoras, e biodiversidade e serviços ecossistêmicos. Cruzando todas essas frentes, o tema das mudanças climáticas atua de forma transversal, dado que o regime anual de vazão dos rios é totalmente dependente dos fenômenos do clima. Um dos desafios atuais do instituto é entender como as invasões respondem a essas transformações globais.

Eventos climáticos extremos associados ao El Niño podem atuar em conjunto com as alterações provocadas pelos reservatórios, modificando as condições para a expansão dessas espécies. Como a planície do rio Paraná depende das oscilações naturais do nível da água, secas e cheias extremas têm efeitos importantes sobre essa dinâmica.

Essas questões vêm sendo investigadas por meio da continuidade das coletas de campo, complementadas por experimentos realizados em condições controladas e modelagens matemáticas para prever os impactos da fragmentação de habitats. Cientistas analisam desde organismos microscópicos até plantas e animais de grande porte. As equipes realizam amostragens, monitoram estoques pesqueiros junto à comunidade, avaliam as emissões de gases de efeito estufa e testam a real eficácia das áreas protegidas. A continuidade desses estudos de longa duração permitirá compreender melhor esses processos e desenvolver estratégias eficazes de prevenção, controle e mitigação dos impactos sobre a biodiversidade.

"O apoio que recebemos da Araucária e o trabalho que desenvolvemos em conjunto também fortalece os Novos Arranjos de Pesquisa e Inovação (NAPIs) mantidos pela Instituição nas áreas de Biodiversidade, Emergência Climática e Águas. Ao conectar a produção de conhecimento com a comunidade local por meio de oficinas e divulgação participativa com pescadores e escolas, o INCT Nupélia garante que a ciência se transforme em políticas públicas e ações práticas. O conhecimento gerado subsidiará decisões baseadas em evidências, assegurando o provisionamento contínuo dos serviços ambientais e promovendo um desenvolvimento socioeconômico que seja sustentável e resiliente diante das transformações climáticas", finalizou o coordenador do INCT Nupélia, Ângelo Antônio Agostinho.

Desenvolvimento regional e fortalecimento das Unidades de Conservação

O impacto do projeto se estende diretamente à governança ambiental das regiões protegidas. De acordo com o chefe do Núcleo de Gestão Integrada Rio Paraná (NGI Rio Paraná)/ Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Arthur Sakamoto, o trabalho conjunto é estratégico para o território.

"A parceria com o Nupélia já vem de muitos anos e esse projeto tende a fortalecer todas as cidades do Paraná que fazem parte daqui da unidade de conservação e vai fomentar também o desenvolvimento regional. Então temos a honra de sermos parceiros dessa iniciativa e acredito que os municípios também estão olhando com bons olhos essa parceria. Isto acontece porque existem demandas para capacitação e pesquisa e esse projeto vai suprir essas demandas. Como integrante do órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente e Gestor da Área, temos esse compromisso de desenvolvimento regional junto com o Nupélia", pontua Arthur.

 

Fotos: INCT Nupélia.

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