Iniciativas das décadas de 80 e 90 foram cruciais para o avanço no setor de tecnologia do Paraná
01/09/2020 - 14:48

O Paraná vem colhendo, nos últimos anos, os frutos das sementes plantadas nas décadas de 80 e 90 no setor de tecnologia. O Estado se tornou o segundo maior polo de tecnologia do País em faturamento. Com R$ 21.2 bilhões atrás apenas de São Paulo que registrou R$ 115 bilhões, em 2019. 


Em relação ao número de empresas do setor de tecnologia por estado, o Paraná está em 4º com 19,6 mil, atrás de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. É o que mostra a pesquisa Tech Report 2020, da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate) e da empresa de big data Neoway.


Um movimento planejado que teve início nos anos 80, o setor de tecnologia ganhou relevância para o desenvolvimento da economia paranaense, sendo uma das atividades mais promissoras do estado. Um trabalho desenvolvido por articuladores importantes do poder público, setor produtivo e da academia.


Um destes articuladores foi Ramiro Wahrhaftig, atual presidente da Fundação Araucária, que em 1985 foi um dos coordenadores de um projeto que visava transformar o Paraná em um pólo de informática.  “Houve um movimento importante de empresários, com apoio dos Governos Estadual e Municipal de Curitiba, com a participação da academia. Foi criado o Centro de Integração de Tecnologia do Paraná (CITPAR), com o objetivo de reunir todos os atores da sociedade civil”, conta Wahrhaftig. 


Ele lembra que um dos principais desafios para o Paraná avançar como polo de informática era a falta de massa crítica, de mão de obra qualificada. Então foi criado o Projeto de Informática Industrial (PII), que era um programa de formação em nível de pós-graduação em Informática Industrial. Foi preciso importar cinco doutores para essa qualificação de mão de obra, do Rio Grande do Sul e da França. A titulação era dada pela PUCPR, antigo CEFET e UFPR.


As atividades letivas iniciaram em 1987. Os primeiros docentes do curso foram Flávio Bortolozzi, Douglas Renaux, Maurício Roorda, Maurizio Tazza e Hélio Rotenberg.


“Para entender a importância de investir em recursos humanos, podemos tomar como exemplo o caso da indústria aeronáutica no Brasil e no trabalho visionário de Marechal Casimiro Montenegro. A criação do ITA na década de 50, seguida dos inúmeros laboratórios de pesquisa no CTA em São José dos Campos nos anos 60, levou à criação da Embraer, nos anos 70 que, atualmente, está entre as quatro maiores indústrias aeronáuticas do mundo”, conta Douglas Renaux que seguiu carreira acadêmica e, atualmente, é pró-reitor de Relações Empresariais e Comunitárias da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Além de ter participado da incubação da primeira empresa na UTFPR: a eSysTech. 


 “A lição que Montenegro nos deixa é que para se ter sucesso na área tecnológica é necessário iniciar pelo elo mais nobre e cuja construção é mais trabalhosa: a formação das pessoas que atuam na área”, completa Renaux.  


Da primeira turma do projeto saíram importantes nomes da indústria de TI em nível nacional. “Marcel Malczewski e Volnei Betiol, alunos da primeira turma, evoluíram seu projeto de impressora desenvolvido no curso e fundaram a Bematech, empresa que orgulha os paranaenses. Helio Rotemberg fundou a Positivo Informática, Maurício Roorda passou a atuar na área de telefonia celular na empresa TIM, e posteriormente na Positivo Informática”, cita o professor.


Renaux relembra também que “dentre os estudantes das primeiras turmas, destacam-se ainda João Luiz Kowaleski, Paulo Cézar Stadzisz e Flávio Neves Jr. Todos professores e pesquisadores atuantes da UTFPR que também se destacam pelos projetos com forte conexão ao setor produtivo, seja no Paraná ou mesmo internacionalmente.”


Recém chegado do Rio de Janeiro, onde havia feito um mestrado em informática, Hélio Rotenberg, funcionário da prefeitura na época, teve um papel fundamental neste processo de formação de profissionais na área de Tecnologia da Informação (TI) no Paraná. 


“A educação é super importante, em todos os níveis. O programa de informática industrial foi fundamental. Alunos ali formados se tornaram empreendedores. Tudo isto, sem dúvida, ajudou muito a fomentar a tecnologia no estado”, destaca Hélio Rotenberg, presidente da Positivo Tecnologia e que ajudou a formar a primeira turma do Projeto de Informática Industrial do Paraná. 


Rotenberg ressalta ainda a importância da articulação com o empresariado. “Acho sim que este movimento tenha despertado os empreendedores latentes a terem uma visão privilegiada da indústria no País e no mundo, dando a eles mais coragem de ousar.”


No primeiro ano de atuação do Projeto de Informática Industrial (PII), o curso ocorreu nas dependências da PUC-PR, sendo transferido no ano seguinte para o CEFET-PR, atual UTFPR. O PII e seu seleto grupo internacional de professores deu origem ao CPGII – Curso de Pós-Graduação em Informática Industrial, que posteriormente expandiu suas linhas de pesquisa transformando-se em CPGEI – Curso de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica e Informática Industrial e que na sequência se transformou em Programa de Pós-Graduação.


Outro personagem importante deste início do desenvolvimento do setor de tecnologia no Paraná foi Kival Weber, que atualmente é conselheiro da ABRAFIP (Associação Brasileira de Fomento à Inovação em Plataformas Tecnológicas) e, na época, foi secretário especial de Informática do Ministério da Ciência e Tecnologia. 


Um importante articulador das ações da Tripla Hélice, na década de 1990, criou o CITS (Centro Internacional de Tecnologia de Software). “Os avanços conquistados nos últimos anos se devem a uma ‘vontade’ expressa na década de 1990 – não uma vontade política, mas uma‘vontade de pessoas e instituições da Tripla Hélice’ (Academia, Governo e Indústria), que foi disseminada nas principais regiões do estado e não apenas em Curitiba”, afirma Kival Weber. 


Afirma também que todo o processo para que o Paraná atingisse o patamar atual como o segundo maior faturamento do país no setor de tecnologia não foi espontâneo. “Na década de 1990, a gestão do projeto ‘Classe Mundial em Software’ foi baseada no ciclo de Deming, ou método do PDCA (P – Plan, planejar; D – Do, executar; C – Check, checar, medir; A – Act, agir corretiva e preventivamente), assim, esse empreendimento foi induzido desde a sua origem e não espontâneo.”


O fundador da Sigma Dataserv Informática e também da Assespro-PR (Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação), Eduardo Guy de Manuel, vai um pouco mais longe na história ao enfatizar que o Paraná já saiu na frente na área de tecnologia desde o início da década de 60 com a criação da Celepar, na época Centro Eletrônico de Processamento de Dados do Paraná ligado ao Governo do Estado. “Foi a primeira instalação de um computador de grande porte que serviu de escola para profissionais que aqui foram formados e muitos profissionais que vieram para cá trabalhar nessa nova e recém fundada companhia.”


Eduardo Guy de Manuel destaca que as iniciativas dos anos de 1990 resultaram na criação do Parque de Software de Curitiba onde várias empresas se instalaram. “As empresas começaram a trabalhar não só competindo, mas também cooperando para buscar mercados, inclusive externos. Hoje a Assespro PR é uma das regionais mais importantes do País. Partiram do Paraná iniciativas que geraram modelos implantados com igual sucesso em estados como Santa Catarina, São Paulo, Minas e outros estados.” 


Para o presidente da Fundação Araucária, Ramiro Wahrhaftig, a grande mobilização que iniciou na década de 80 começou a ser retomada agora. “Houve uma sequência de eventos por uma comunidade que estava muito mobilizada para que isso acontecesse. Esta mobilização acabou se perdendo nos últimos anos e retomada agora, com esta ascensão do Estado.”


“Começou agora novamente a ter este movimento forte. O que temos de mais importante no Estado hoje é o nosso Sistema de Instituições de Ciência, Tecnologia e Ensino superior. Estas 12 instituições públicas que nós temos (sete estaduais e cinco federais), são as grandes responsáveis pelo posicionamento  do Estado que oscila entre segundo ou terceiro lugar no ranking nacional de tecnologia. E esta ascensão vai permanecer se continuarmos investindo em gente,” enfatizou o presidente da Fundação Araucária. 


A mesma análise é feita pelo vice-presidente da Assespro, Ailton Renato Dorl. “Estes resultados se devem, principalmente, às instituições de ensino que se esforçam para oferecer cursos de qualidade, principalmente na área de TI. Também ao fato de empresas importantes terem permanecido com suas sedes no Paraná o que contribui para a excelente posição que o setor de tecnologia paranaense ocupa. Nesse grupo coloco IBanks, Madeiramadeira e tantas outras startups que nasceram aqui e deram certo. Depois não esqueçamos da Positivo, Tecnospeed, Bematech, CINQ, BRQ, TIVIT e outras que cresceram”, disse.

 
“Observamos também a conscientização de prefeituras e governo estadual, principalmente do atual governador, que reconheceram que grande parte das receitas futuras virão desse segmento, atraindo com infraestrutura empresas que poderiam estar em outros estados, caso da TATA (indiana com sede em Londrina e tantas outras)”, concluiu Ailton Dorl.


O cenário atual do setor de Tecnologia da Informação (TI)  –  Segundo dados do Ministério da Economia (os mais recentes são de 2018), o Paraná está em 3º lugar em número de empresas de serviços de TI com cerca de duas mil. Ocupa o sexto lugar em número de empregos gerados, cerca de 26 mil. De 2017 para 2018 o crescimento do número de empregos no Paraná foi de 16% em serviços de TI enquanto que a média nacional foi de 8%. O Paraná cresceu mais do que todos os outros estados neste período.  O Paraná também é o 3º maior exportador em serviços de software. Só perde para SP e Rio Grande Sul, isso em 2018. Em 2017 chegou a ser o segundo maior exportador, perdeu a posição para o Rio Grande do Sul neste período.


 “Mesmo em momentos de crise é um setor muito demandado exatamente para ajudar os demais setores a otimizarem estes processos, com novas tecnologias e inovação. Apesar de algumas empresas serem afetadas diretamente por outros setores que caíram, em geral vemos um crescimento. O setor de TI atua transversalmente na economia do Paraná e consegue ser um dos alicerces para que os demais setores cresçam através da TI”, disse o presidente da Assespro-PR,  Adriano Krzyuy.


O presidente da Assespro lembra que além da produtividade é preciso considerar da competitividade global. “Num cenário bastante acirrado em termos de tecnologia, considerando grandes áreas como inteligência artificial, internet das coisas, ciência dos dados, big data, enfim que estão demandando muito das empresas para que estejam à frente nesta competição. O poder público precisa investir muito em tecnologia e inovação para não correr o risco de estarmos somente consumindo tecnologia de outros países e não tendo produção própria e inovação.” 


De acordo com o professor e pesquisador da Universidade Federal do Paraná, Vítor Pelaez, os dados mostram que o Paraná teve um crescimento acelerado de qualificação dos profissionais da área nos últimos dez anos mas ainda está aquém da expectativa do setor empresarial. “Aparece como 2º estado na oferta de mão de obra, perdendo apenas para São Paulo, mas está em 5º em geração de empregos na área.”


Acrescenta que, em relação ao ramo de serviços de TI, em 2018 Curitiba estava em quarto lugar em número de empresas com 812 empresas cadastradas, em sexto lugar em número de empregos com cerca de 14 mil empregos. Importante notar que Curitiba concentra 54% dos empregos em serviços de TI do Estado e 40% do número de empresas que atuam no serviço de TI no Estado.”


Adriano Krzyuy ressalta que a importante posição ocupada pelo Paraná nos rankings de tecnologia deve-se, principalmente, ao setor de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). “A gente percebe um crescimento das empresas de TIC no Estado e também com as startups houve um incremento neste número.”


“São muitos os desafios enfrentados pelo empresariado mas com a ajuda do Governo do Estado, da Assespro, da Fundação Araucária, da Seti, SEBRAE e dos municípios, observamos um crescimento essas ações culminou neste extraordinário resultado”, comentou. 


Pandemia – Sobre o impacto da pandemia da Covid-19 o empresário Eduardo Guy de Manuel enfatiza que os desafios são enormes em todo o mundo. “Para o setor de tecnologia a pandemia apresentou uma realidade nova que não só o setor mas todos os outros tiveram que se adaptar rapidamente. Com isso foi possível criar novas soluções, como o avanço da tele-medicina, por exemplo.”


“De um modo geral não se vê um problema muito sério no momento pós pandemia se soubermos aproveitar as lições deste período que estamos sofrendo. Vamos ter problemas na economia e na saúde pública, mas ao mesmo tempo também muitas oportunidades para melhorar a produtividade da nossa economia e isso se faz, principalmente, com uso de recursos da tecnologia”, finalizou Eduardo Guy de Manuel. 

Por Ticiane Barbosa - Fundação Araucária

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